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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Welcome to “The Dark Side Of The Moon”



“Money, so they say, is the root of all evil today.” (“Money”-Pink Floyd)


Este álbum de nome estranho não é apenas o trabalho mais cerebral da carreira dos ingleses do Pink Floyd, mas também o melhor disco de Rock Progressivo, um dos melhores da história do rock, bem como da música em geral, sem exagero algum. “The Dark Side Of The Moon”, vale ressaltar, figura entre os discos mais vendidos em todo globo, ficou 14 anos, isto é, 741 semanas entre os mais vendidos, o que gerou uma vendagem astronômica de cerca de 45 milhões de cópias, perdendo só para “Thriller”, do Michael Jackson, e “Back In Black”, dos australianos do AC/DC. Reparem inicialmente na capa. Esta é uma das mais conhecidas da história da música. Mas o que ela significa? Comecemos, pois, a dissecar o álbum, comecemos a hercúlea tarefa.

A simbologia do triângulo, como muitos de vocês já devem saber, significa ganância, poder, e encontraremos estes elementos ao longo do álbum. Uma das curiosidades deste disco reside na sincronia com o clássico do cinema, “O Mágico de Oz”, depois do último rugido do leão da MGM é só dar play no disco. Pronto. As imagens do filme estarão perfeitamente sincronizadas com as letras e com a musicalidade do disco. As coincidências são impressionantes!

A idéia de toda obra foi do baixista Roger Waters, se não me engano escreveu todas ou quase todas as letras. O ano de lançamento, 1973, era uma época obscura, aliás os anos 60 e 70 foram obscuros. E Waters soube captar perfeitamente toda a conjuntura do homem moderno, os males e colocá-los em um único álbum, a escuridão pairava. A propósito, a dupla Waters-Gilmour é, sem dúvidas, uma das mais geniais do mundo da música, enquanto estavam unidos musicalmente produziram obras fantásticas, especialmente esta de que falamos.

Iniciemos, finalmente, as canções desta obra-prima. A primeira faixa é a singela “Speak To Me/Breathe”. Ela inicia-se com uma voz repetindo:

"I've been mad for fucking years, absolutely years, been over the edge for yonks, been working me buns off for bands…”

Isso é acompanhado por um característico batimento de coração ao fundo, e logo depois entra o clássico som ‘pinkfloydiano’, aquele instrumental inconfundível, viajante, psicodélico. Aumente o som e deixe-se levar pela música, você será levado à lua sem sair de seu próprio quarto, o lado escuro da lua está começando. A doce voz de David Gilmour inunda nossos ouvidos com:

“Respire, respire o ar
Não tenha medo de se preocupar
Vá embora, mas não me deixe
Procure ao redor e escolha seu próprio chão

Por mais que você viva e voe alto
E os sorrisos que você vai dar e as lágrimas que vai chorar
E tudo que você toca e tudo que você vê
É tudo que sua vida sempre será

Corra, coelho, corra
Cave um buraco, esqueça o sol
E quando afinal o trabalho estiver feito
Não se sente, é hora de começar mais um

Por mais que você viva e voe alto
Mas somente se você flutuar na maré
E se equilibrar na maior onda
Você só corre para uma sepultura precoce”

Há quem diga que essa música representa a passagem para a consciência, especialmente devido à frase: “procure ao redor e escolha seu próprio chão”. Enfim, é uma música de que gosto muito. A próxima é “On The Run”, uma das três instrumentais que permeiam a obra. Ela tem um som eletrônico e muitos sons ‘aleatórios’, como barulho de ambulância, passos, sirene, cavalgadas, ecos, respiração ofegante... Resumindo, viagem total, sempre pulo essa faixa. A grande contribuição dessa música está no fato de que ela é considerada por muitos críticos a precursora da música eletrônica, que surgiria na década seguinte.

A terceira faixa inicia-se abruptamente, uma dezena de relógios dispara. Ela chama-se “Time”, nome melhor impossível, não é? A letra trata da fugacidade do tempo, nela percebemos nitidamente a velha filosofia “Carpe Diem”. Logo depois dos sons de relógios a música propriamente dita começa, obscura, a bateria de Nick Mason dá um ritmo sombrio e os demais instrumentos parecem segui-la, até que a canção estoura e Gilmour começa a cantar. O refrão, com uma levada melódica, é uma beleza a parte, porém mais belo que ele só o solo de guitarra executado por Gilmour, cristalino, refinado, ora lento, ora levemente acelerado, ora seguido por vocais femininos, ora não. “Time” é, sem dúvidas, inesquecível, fantástica, perfeita.

“The Great Gig In The Sky” para mim é o ponto alto do disco, isso se puder escolher apenas um. Essa canção é totalmente instrumental, e confesso que nas primeiras audições do álbum a pulava sem dó, simplesmente não me agradava. Até que um dia pensei: “vou escutá-la novamente”. Deste dia em diante nunca mais a pulei, às vezes coloco o disco só para ouvi-la. “The Great Gig In The Sky” inicia-se com lindos acordes de piano do genial Richard Wright, acordes estes que nos dão uma sensação melancólica, e o piano mantém-se na mesma cadência por alguns segundos, sozinho, a lamentar-se, até que as primeiras notas da guitarra de Gilmour aparecem, esparsas, tímidas, e, paulatinamente, o piano e a guitarra começam uma espécie de diálogo. Um narrador logo em seguida diz: “I’m not afraid of dying...” Segundos depois a música explode como uma onda, a bateria e o baixo surgem, sem contar uma voz feminina que grita, lindamente. A voz é de Clare Torry, uma vocalista convidada por Wright, cujo trabalho foi impecável. “The Great Gig In The Sky”, essencialmente, é uma canção sobre o desespero perante a morte, o horror nu e cru. O medo da morte não pode ser mais bem resumido que gritos, essa foi a grande sacada de Wright, para que escrever uma letra se se pode pedir alguém talentoso para improvisar o desespero na morte?

Ora, essa faixa é linda e carregada de emoção, porém muitos não a compreendem. O início da voz de Clare é um turbilhão de gritos desesperados de altíssima técnica vocal que, com o passar da música, tornam-se lamentos, parece-nos que depois da metade da canção ela está conformada com sua situação, com a morte iminente. Curiosamente Wright disse-lhe apenas: “pense na morte, pense no horror, apenas improvise e cante o que sabe”. O resultado final foi essa fabulosa canção.

Ganância e dinheiro estão presentes na faixa seguinte – “Money”. Ela começa do mesmo modo que “Time”, com sonoplastia, no entanto agora não são relógios, e sim dinheiro, uma caixa registradora. É aí que entram as linhas de baixo de Waters, para mim as melhores de sua carreira, até melhor que as linhas em “Dogs”. O baixo repica gravemente numa levada que gruda na cabeça, inconfundível, reconhecida em todos os cantos do mundo, uma obra de arte. Depois os riffs da guitarra de Gilmour e a bateria de Mason entram abruptamente e levam-nos na mesma cadência ritmada. Neste momento Waters trabalha a ganância, o poder, a ambição, o dinheiro, o bem mais procurado pela humanidade que muitas vezes gera guerras, roubos, matanças,  ou seja, grande parte das desgraças deste mundo. Ainda musicalmente falando, porém, a música tem clara influência jazzística com um belo solo de saxofone que deságua num turbilhão de sons de guitarra, baixo, bateria e teclado, de onde sai mais um solo magistral de Gilmour, de repleta técnica. “Money” é um clássico ‘pinkfloydiano’, um clássico do rock, um clássico da música.

Passemos adiante, o que dizer de “Us And Them”? Duas palavras bastam – beleza impressionante. A letra trata das relações, guerras, diferenças entre os indivíduos, que são todos temas bastante pesados, eis um trecho: “Nós e eles / e acima de tudo / somos apenas homens ordinários / Eu e você / apenas Deus sabe / que não é o que escolheríamos fazer”. Além disso, a musicalidade, os arranjos desta canção são fantásticos, Wright teve contribuição direta nesses arranjos, tanto que seus teclados são perfeitamente audíveis e dão um toque especial. Mais uma vez há influência jazzística gritante, com saxofone na introdução, ao longo da canção e especialmente no refrão, contudo o que mais salta aos ouvidos são os espaços na música. Isso mesmo. Preste bem atenção na próxima vez como os acordes são cadenciados e esparsos, foi totalmente proposital, isso é o que faz o Pink Floyd ser uma banda genial, é tudo calculado, preciso, mágico. A cadência e os espaços, no entanto, desaparecem durante os refrões em que as vozes de Gilmour e Wright tornam-se uma, o saxofone reaparece com força, vocais femininos fazem coro e os instrumentos da banda elevam a música a um novo patamar, com a bateria numa levada cirúrgica, precisa. Destaque ainda para o fenomenal solo de saxofone.

Emendada a “Us And Them” vem “Any Colours You Like”, a terceira e última instrumental do álbum. A sonoridade dessa música é transcendental, muito devido aos teclados e a guitarra que criam um clima psicodélico. Agora estamos muito próximos do fim, pois vem “Brain Damage”, na qual a loucura é tratada de forma fantástica, como neste trecho: “você tranca a porta / e joga a chave fora / há alguém dentro da minha mente / e não sou eu”. Esta faixa é uma viagem aos cérebros danificados aliada a ótimos arranjos e vocais femininos. “Eclipse” é o gran finale (a viagem está terminando) que encerra esta obra-prima de maneira magistral, e no fim dela um coração pulsa da mesma forma que se iniciou o álbum. No fim de tudo, ainda, uma voz diz basicamente: “A lua não tem um lado escuro, porque ela é toda escura”.

Ora, então qual o porquê do nome do álbum? Para o completo entendimento da obra precisamos de um pouco de cultura geral. O lado escuro da lua foi tratado e ainda é em muitas culturas como um lugar repleto de criaturas estranhas, dragões, gnomos e etc. Acho que até antes da idade média acreditava-se em algo parecido. E todos sabemos que o gênero humano inventa histórias e explicações para muitas coisas que não consegue explicar, que nos parece estranho. Daí surgem deuses, seres divinos, criaturas maléficas, estranhas e muitos outros, tudo dentro de um imaginário humano. E assim a lua era, uma parte continha sua beleza, visível a toda humanidade, e na outra, a podridão, seres hediondos.

O lado escuro da lua é, pois, nada menos que uma metáfora (uma genial metáfora!) acerca da alma humana, dos recônditos da alma humana. Este local é onde guardamos nossa parte podre, aquilo que não desejamos que ninguém veja, a face que não mostramos em público. O Pink Floyd, obviamente, trabalhou só parte dos chamados males do homem moderno, uma vez que são dezenas, no entanto foi tão bem abordado que “The Dark Side Of The Moon” tornou-se uma obra imortal, influenciou o mundo da música. A bem da verdade, a contribuição deste disco é incalculável, mesclando elementos de blues, jazz, rock e música eletrônica com a tradicional genialidade dessa famosa banda britânica. Nem precisa dizer que esse disco é o meu favorito, não é?

Se você nunca ouviu este álbum vale a pena, mas saiba de antemão que muito provavelmente você não gostará na primeira audição e talvez nem na segunda, pois, a despeito da coesão, ele é de difícil “digestão”, haja vista que são muitos nuances nas letras e nos arranjos. E se você não gostar mesmo, pelo menos poderá dizer que tentou, desperdício de tempo não foi. Então, fica a dica. E aos que apreciarem o mundo ‘floydiano’, farão viagens transcendentais ao som de clássicos como “Echoes”, “Shine On You Crazy Diamonds”, “Time”, “Comfortably Numb”, “Careful With That Axe Eugene Machine”, “Dogs”, “Money” e muitos outros.

*Quem quiser assistir a curiosa sincronia entre o vídeo do “Mágico de Oz” e o “The Dark Side Of The Moon” aqui está a primeira parte. No próprio Youtube tem as demais partes. É muito interessante, vale muito a pena.
http://www.youtube.com/watch?v=DGMBwTjL79k
*Video de uma canção do disco ao vivo: http://www.youtube.com/watch?v=6MIv7LcpFjY&feature=related

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